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Greenfield ou Brownfield? Os dois caminhos para investir em infraestrutura

  • 29 de mai.
  • 4 min de leitura

Atualizado: há 2 horas

Projeto de infraestrutura em construção

Artigo publicado originalmente no site Valor Investe, elaborado por Camila Affonso e seu time de consultores do Leggio Group, em parceria com o colunista Carlos Heitor Campani.



Neste artigo, desenvolvido em parceria com Camila Affonso, sócia do Leggio Group, e sua equipe de consultores, vamos explorar duas possíveis alternativas dentro de investimentos em infraestrutura: ativos greenfield e brownfield. Mais do que conceitos, estas opções estão associadas a dois principais tipos de risco (a saber: o risco de implantação e o risco de operação), os quais possuem conexão direta com a estrutura do ativo, o retorno esperado e o perfil de investidor. A proposta deste artigo é trazer essa comparação de forma didática, mostrando como a distribuição do risco ao longo do tempo altera a dinâmica de investimento nestes ativos.



Projetos de infraestrutura possuem características muito específicas. São intensivos em capital, possuem ciclos longos de maturação e dependem de previsibilidade operacional durante muitos anos. Rodovias, portos, aeroportos, saneamento e ativos de energia exigem investimentos elevados antes mesmo do início da geração de receita. Nesse contexto, entender como o capital é consumido e quando o caixa começa a retornar é parte central da análise.


Dentro desse universo, há os conceitos dos ativos greenfield e brownfield, segundo os quais a principal diferença está na maturidade e estágio do ativo. Projetos greenfield são desenvolvidos “do zero”, passando pelas etapas de estudo, planejamento, construção, implantação e entrada em operação. Já ativos brownfield, em sua maioria, estão prontos e operacionais, com histórico de demanda, fluxo de caixa e desempenho observável.


Essa diferença muda a lógica financeira do investimento, especialmente na forma como risco, capital e geração de caixa se distribuem ao longo do tempo, conforme resumido na tabela abaixo.



comparativo Greenfield e Brownfield


Para visualizar melhor essa diferença, imagine dois investimentos com objetivos econômicos semelhantes no longo prazo. Em ambos os casos, o investidor busca exposição a um ativo capaz de gerar fluxo de caixa recorrente durante muitos anos. No primeiro caso, o investidor decide desenvolver um novo projeto, ou seja, partindo “do zero”. O capital precisa financiar obras, equipamentos, infraestrutura e implantação operacional antes que o ativo comece a gerar receita. No segundo caso, o investidor adquire um ativo já existente. Há um desembolso inicial relevante para aquisição e eventuais manutenções ou renovações de infraestrutura, porém o ativo já possui demanda observável e geração de caixa mais previsível.


Embora os dois investimentos possam ter objetivos financeiros semelhantes, o comportamento do caixa ao longo do tempo é distinto, como ilustrado no exemplo hipotético abaixo. Enquanto o greenfield concentra um dispêndio de capital mais forte nos primeiros anos devido à implantação do projeto, o brownfield apresenta uma dinâmica mais estável, com geração de caixa mais rápida após o investimento inicial.



Comparativo do Fluxo de Caixa entre os Cenários (Exemplo Hipotético)


No greenfield, os fluxos negativos observados nos primeiros anos representam investimentos em construção, infraestrutura, equipamentos e desenvolvimento operacional (período de ramp-up do investimento). Durante essa fase, o ativo ainda não gera receita, o que faz com que o risco fique concentrado justamente no início do ciclo do investimento.


O ano 4 representa a transição entre implantação e operação. Nesse momento, o projeto praticamente deixa de consumir capital e começa a entrar em sua fase operacional. A partir dos anos seguintes, o ativo passa a gerar fluxo de caixa positivo de forma recorrente (usualmente no início ocorre um período de ramp-up da operação).


No brownfield, a dinâmica é diferente. Apesar de ocorrer um desembolso inicial para aquisição do ativo e eventuais manutenções ou renovações de infraestrutura, a geração de caixa começa de forma mais “rápida” em comparação com ativos greenfield, já que o ativo se encontra em fase operacional. Isso reduz a necessidade de financiar anos de construção e implantação e torna o comportamento do caixa mais previsível ao longo do tempo.


Essa diferença ajuda a entender por que o tempo possui um peso tão relevante em infraestrutura. No greenfield, atrasos na obra ou aumento de CAPEX podem gerar impactos significativos, uma vez que a receita depende diretamente da entrada em operação do ativo. Já no brownfield, o risco tende a estar mais associado à manutenção da demanda, eficiência operacional e qualidade da gestão.


Trazendo exemplos reais dentro do setor portuário, o VDC29, no Porto de Vila do Conde (PA), é um exemplo de ativo greenfield, uma vez que está associado à implantação de um novo terminal voltado à movimentação e armazenagem de granéis sólidos vegetais, com destaque para soja e milho. Já o STS10, no Porto de Santos (SP), se enquadra como ativo brownfield por estar ligado à expansão e modernização de uma estrutura em área portuária já consolidada, destinada à movimentação e armazenagem de cargas conteinerizadas.


Outro ponto interessante é que ativos greenfield normalmente permitem maior flexibilidade estratégica. Como o projeto é desenvolvido desde o seu início, existe maior liberdade para incorporar tecnologia, eficiência operacional e capacidade futura de expansão. Já ativos brownfield carregam limitações da estrutura existente. Muitas vezes, parte do investimento futuro está ligada à modernização, retrofit e adaptação operacional do ativo.


Desta forma, investidores mais focados em previsibilidade, estabilidade operacional e geração de caixa de forma mais “rápida” tendem a preferir ativos brownfield. Já investidores com estratégias de horizonte mais longo e maior tolerância a risco frequentemente buscam exposição a projetos greenfield, justamente pela possibilidade de capturar maiores retornos ao longo do ciclo do projeto e maior flexibilidade operacional.


Em suma, não existe um caminho melhor do que o outro, mas sim aquele que se alinha mais eficientemente ao estômago de risco, ao horizonte de tempo e aos objetivos estratégicos de cada investidor. Enquanto os projetos greenfield demandam paciência e resiliência na fase de construção em troca de um maior potencial de valorização futura, os ativos brownfield oferecem o conforto da previsibilidade e do retorno imediato, ainda que limitados pelas estruturas do passado. No dinâmico mercado de infraestrutura, o verdadeiro sucesso não está em evitar o risco, mas em saber exatamente qual tipo de risco você está preparado para gerenciar.



*Carlos Heitor Campani é PhD em Finanças, Diretor Acadêmico da iluminus - Academia de Finanças, Sócio da CHC Treinamento e Consultoria, Pesquisador da Cátedra Brasilprev em Previdência e da ENS – Escola de Negócios e Seguros.


*Camila Affonso é Sócia do Leggio Group, Diretora do Departamento de Infraestrutura da FIESP, Mestre em Finanças Corporativas pela Université de Bordeaux, Especialista em Finanças pelo COPPEAD/UFRJ, Engenheira de Produção e Matemática pela UFRJ.


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