Brent a US$ 117: Petrobras deixa de capturar parte da alta no diesel, mas saldo é positivo
Os preços do petróleo Brent chegaram a US$ 117 na véspera da entrevista, o maior patamar desde maio. Em entrevista ao jornalista Stevão Limana, do CNN Brasil Money, Marcus D'Elia, sócio da Leggio Consultoria, avaliou que, nesse cenário, a Petrobras deixa de capturar parte da alta do diesel, mas não tem perda direta na venda do produto. Segundo ele, a expectativa é de que o petróleo continue subindo e de que o diesel fique mais caro para o consumidor nas próximas semanas.
Petróleo deve seguir em alta com a incerteza sobre o suprimento no Golfo
D'Elia explica que o preço de US$ 117 se refere ao contrato futuro de dezembro, que converge para o patamar atual do mercado. O Dated Brent, referência para o petróleo físico, já está entre US$ 120 e US$ 125, o que indica que essa precificação já existe na bacia do Atlântico.
O que sustenta a tendência de alta, segundo ele, é a incerteza sobre o suprimento no Golfo, com o recrudescimento das tensões e dos ataques no Oriente Médio, tanto no Golfo Pérsico quanto no Mar Vermelho, além da situação envolvendo a Arábia Saudita. Para D'Elia, a visão de futuro com base nesse contexto indica que o preço deve caminhar para US$ 120.
Petrobras deixa de capturar parte da alta no diesel, mas não tem perda direta na venda
A pressão sobre o diesel já existe hoje, segundo D'Elia. O crack spread, diferença entre o preço do diesel e o do petróleo, está muito alto em relação ao histórico do mercado. Somado à alta do petróleo, isso torna o diesel muito caro. No Brasil, o preço de paridade de importação do diesel é o dobro do preço praticado pela Petrobras. Para ele, a contenção do preço no país faz parte da política de preços da companhia: o diesel subiu em relação ao histórico, mas segue em um patamar muito baixo diante da paridade de importação.
Na avaliação de D'Elia, isso não significa prejuízo para a empresa. O petróleo da Petrobras entra na precificação do diesel como petróleo próprio, e o custo de produção é menor que o preço de venda, o que mantém uma margem. "Não existe uma perda direta na venda do diesel da Petrobras. O que a gente pode dizer é que ela deixa de ganhar por conta de não estar capturando todo o crescimento do preço do mercado internacional", afirmou.
Na venda de petróleo, ele cita o imposto de exportação, que não existia e passou a existir com a guerra, como parte da mecânica de subsídio e de preço oferecido a produtores e importadores. O imposto também afeta, de certa maneira, o ganho da Petrobras. Ainda assim, D'Elia avalia que, apesar de a Petrobras deixar de capturar parte da alta internacional no diesel e de o imposto de exportação afetar os ganhos com a venda de petróleo, o saldo é positivo para a companhia.
Diesel deve subir nas próximas semanas, mas estoques sustentam o abastecimento
Para as próximas semanas, D'Elia espera que o preço do diesel continue subindo no mercado internacional, por causa do efeito duplo da alta do petróleo e do crack spread elevado. O preço praticado pelas distribuidoras no Brasil é uma média ponderada entre o diesel comprado da Petrobras e o importado, que ainda responde por cerca de 25% do consumo. Por isso, segundo ele, a composição exige um aumento para o consumidor, que não deve ser muito forte, mas que pode impactar diretamente a inflação.
Sobre o risco de desabastecimento, ele afirma que o Brasil tem passado bem pelo período de guerra e que existem estoques de diesel e de gasolina no país, embora menores do que deveriam ser, uma crítica que a Leggio faz de forma sistemática à política de estoques de combustíveis. "Esses estoques deveriam ser maiores, mas os estoques que existem hoje estão garantindo esse abastecimento nacional e a gente não espera ter nenhum problema ao longo do tempo, mesmo com o crescimento da crise e essa questão do aumento do preço", disse.
Preços elevados devem persistir em 2026, e a Europa pressiona os derivados
Questionado sobre uma possível queda das cotações ainda neste ano, D'Elia considera improvável. Os contratos futuros apontam tendência de alta, e o contexto é mais complexo: a demanda europeia por derivados é muito forte e não está sendo suprida por outros países, o que aumenta o refino na Europa e o preço dos derivados na bacia do Atlântico. Para ele, é muito difícil esperar redução no preço do diesel ao longo do ano e ainda mais difícil esperar contenção no preço do petróleo, já que não há horizonte positivo de redução das tensões no Oriente Médio.
A queda do petróleo depende do fim das tensões e da regularidade do escoamento
Mesmo com um arrefecimento do conflito, D'Elia diz que a desaceleração do preço leva tempo, de cerca de um mês a dois meses, e só ocorre com a eliminação das tensões. Segundo ele, o volume produzido no Golfo Pérsico não é hoje a questão principal, porque já está equilibrado: o escoamento foi criado por outros canais, como o duto na Arábia Saudita e a operação de petroleiros do tipo shuttle que retiram o petróleo de dentro do Golfo para exportação.
O que mantém o preço alto, segundo ele, são dois fatores:
A incerteza com relação ao término do conflito
A possibilidade de garantir um fluxo regular da movimentação do petróleo ao longo do tempo
"O que está hoje mantendo esse preço num patamar mais alto é, primeiro, a incerteza com relação ao término do conflito e, segundo, a possibilidade de você garantir um fluxo regular da movimentação desse petróleo ao longo do tempo", afirmou.
D'Elia acrescenta que a guerra entre Rússia e Ucrânia continua pressionando o mercado de derivados. Com isso, o petróleo pode até ficar mais barato, enquanto os derivados seguem acima do patamar usual.
Assista à entrevista completa de Marcus D'Elia ao CNN Brasil Money: https://www.youtube.com/watch?v=4zivpnNIZ1Q




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